CRISTINA TROUFA | EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL 19.11.2011

Cristina Troufa e Charles Darwin


Vi pela primeira vez uma das pinturas de Cristina Troufa há uma semana, num post do Facebook. A profundidade emocional da jovem representada na pintura, a complexidade da sua expressão facial, levaram-me a ir ver a página pessoal da pintora. A obra perturbante e colorida com que aí deparei fez-me compreender que estava perante uma artista original e cheia de talento.
As pinturas de Cristina Troufa trouxeram-me de imediato ao espírito uma exposição que vira no Porto um ano antes (no Museu Soares dos Reis) baseada no trabalho seminal de Charles Darwin sobre a relação entre emoção e genética, A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais. Publicado em 1872, este livro precursor de Darwin – assim como a exposição que vi – incluía fotografias surpreendentes de adultos e de bebés exibindo um enorme leque de emoções, do sofrimento ao desespero, da ansiedade à felicidade e ao êxtase. Do meu ponto de vista, o principal objectivo de Darwin nessa obra consistia em estabelecer uma ligação entre o comportamento humano geneticamente determinado – incluindo as nossas expressões faciais – e os nossos estados de espírito.

Ao ver as pinturas de Cristina, apercebi-me claramente da sua extrema mestria na representação das complexas emoções e sentimentos manifestadas pelos seres humanos e que Darwin pretendera explorar. Não é coisa fácil de conseguir – na verdade, muitos foram os artistas, por excelentes que fossem, que ao longo dos séculos fracassaram no intento de representar a face humana em pintura com fidelidade e intensidade. De certo modo, não há nisso nada de surpreendente; exigem-se excepcionais capacidades técnicas e poderes de observação para representar em pintura um sentimento complexo como aquele em que, por exemplo, dúvida e temor se confundem. Ou o sentimento de pânico controlado. Ou pintar uma emoção tão subtil como a reserva. É espantoso como Cristina Troufa consegue de forma tão coerente representar tais sentimentos na sua pintura. Por exemplo, naquela que é a minha pintura favorita nesta exposição, o auto-retrato Sombras no Sotão, uma mulher jovem observa fixamente qualquer coisa ao longe que pode muito bem ser estranho ou inquietante. Ao mesmo tempo parece fazer o possível por não revelar o estremecimento de medo que a percorre. A suspeição e o interesse que sente, mas também a sua necessidade de distanciamento, é evidente na firme contensão dos olhos e da boca, assim como, a um nível secundário, no propósito e na aplicação da posição da cabeça e dos braços. O esforço para controlar as suas emoções está também implícito na atenção que dedica aos atacadores dos sapatos, se bem que os seus pensamentos estejam claramente algures.


Sendo certo que a capacidade para compreender e interpretar as expressões faciais e a linguagem corporal varia de pessoa para pessoa, os quadros desta exposição irão seguramente despertar uma extrema variedade de emoções e ideias. E de perguntas. Será que a rapariga sentada no canto de Evolução está com vergonha ou com medo? Ou as duas coisas? Será que a mulher que se vê na parte esquerda do quadro Etapas sente inveja da imagem sorridente de si própria que se vê à direita? Ou estará simplesmente irritada? Porquê?

Ao fim e ao cabo, é quem vê que terá de fazer a sua própria interpretação, naturalmente.

Texto de: Richard Zimler
 
EXPOSIÇÃO HOJE, DIA 19.11.2011
Palpura Galeria de Arte, Rua Alberto Villaverde Cabral, nº 2 loja A, Encosta do Mosteiro,
1400-905 Lisboa Restelo